quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Esconde-esconde, quem conta?

Eu sou filha única e neta única de um lado da família, os primos da minha idade sempre moraram em outros estados, e eu sempre fui bem mirrada. Logo, eu era uma criança sozinha e tive que aprender a me divertir desse jeito.


Não quero soar utópica, odeio discursinhos poliana, o que eu vou falar aqui é bem sério. Eu já fiz uma quantidade considerável de aniversários, o que significa que quando eu era criança não tinha computador, vídeo-game era supernintendo, a gente comia moedinha de chocolate achando o máximo e via Raul Gil no domingo. Logo, eu tinha que inventar umas coisas pra conseguir brincar.


“Princesa de Saturno” era o hit da escola quando eu tinha sete anos; foi uma daquelas brincadeiras que foram proibidas pela professora por “atrapalhar o desempenho nas aulas” (mais alguém estudou em escola de fascista ou só eu?). Eu não lembro bem como era, mas tinha alguma coisa com uma princesa alienígena e eu lembro que o pátio da escola era um sistema solar.


Uma outra que fazia um puta sucesso, no meu prédio, era a brincadeira em que eu era uma cigana que era “princesa” dos ciganos (uma mistura de cultura cigana, indígena e absolutista, oi) que morava na cabana maior de todo o pátio cigano (atrás dos pinheirinhos de um dos canteiros). No castelo ali perto (a casa da piscina), moravam duas princesas não-ciganas muito malvadas (minhas vizinhas) que faziam de tudo para tomar as terras do meu povo e nos expulsar dali. E do lado tinha o campo verde (a quadra), um lugar que te congelava instantaneamente se você pisasse nele.


Já com uns nove, eu era uma adolescente que passou a vida numa cabana isolada (o carramanchão da escola) e que, no dia do aniversário de 15 anos, ganha um presente: A oportunidade de ir conhecer a cidade, passando pela floresta (um canteirinho), pegando a balsa (um banquinho de madeira) e atravessando o grande rio (o pátio de ardósia).


É claro que estou falando das mais elaboradas, porque quando eu era criança, um elevadinho na parede era um escorregador de plantas, uma erva daninha no chão era uma planta alienígena que queria dominar o planeta, etc. Mas eu lembro que eu realmente acreditava, sentia, fazia todas aquelas coisas.


Será que a gente pára de brincar porque falam pra gente “Ah, você não é mais criança né, pára de ficar boba”. Eu sei que a gente precisa crescer, eu entendo como o mundo funciona. Eu brinquei de Barbie até os dezesseis anos. Eu admito que sou infantil, que tenho até um pouquinho de síndrome de Peter Pan, mas será, que se eu tentasse, eu ia conseguir brincar?


Eu ia me sentir ridícula no começo, mas afinal... Será que eu ia? Eu acho que é questão de costume. Não to falando que vou começar a brincar porque aliviaria o estresse do dia-a-dia, blá blá blá, não. É porque de verdade, seria tremendamente divertido simplesmente brincar. Simplesmente ser lá a princesa de saturno, ou atravessar o congelante campo verde, ou fazer qualquer coisa em que eu pudesse sair do meu mundo sem ter que realmente sair dele.


Afinal, internet, cinema, TV, etc, não são apenas para substituir o que a gente consegue fazer muito bem sozinho na infância?


Da próxima vez que der, vou me desafiar a brincar. Me sentindo ridícula ou não (já falo sozinha no meio da rua mesmo). E quem quiser vir comigo põe o dedo aqui, que já vai fechar, não adianta nem chorar.


Por Ana C.


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